Qual é a questão mais difícil do ITA?

Já vou ser honesto contigo: eu não acho que é exatamente a questão mais difícil do ITA, né? Na verdade, o ITA sequer tem um ranking de questões mais difíceis, mas essa é uma questão que tem uma dificuldade. E essa dificuldade não está na conta.

O que trava todo mundo é enxergar a equação do vínculo geométrico. É esse o pulo do gato.

A questão em si é de Física: dois blocos de mesma massa, atrito entre a caixa e o chão, uma polia ideal e um fio que faz sempre 30° com a horizontal, pedindo a tração no fio. Só que quem fecha essa conta até o fim é a Matemática.

O número que abre a resolução
θ=30 \theta = 30^\circ

É o ângulo que o fio faz com a horizontal, o tempo todo. Guarda esse número, é dele que sai toda a decomposição trigonométrica lá na frente.

Atualizado em jul/2026. Sou mestre em Física Teórica pela UFMG, e o Universo Narrado já passa de 1 milhão de inscritos no YouTube. A régua aqui é uma só: entender o vínculo geométrico, não decorar a resposta final.

O que a questão do ITA pede?

A questão pede uma coisa só: a tração no fio.

O sistema é esse: existe uma parede vertical presa no chão, colada numa caixa grande, e essa parede garante que uma massinha sempre escorregue verticalmente ao longo dela. Presa no alto da caixa tem uma polia ideal, e um fio ligando a massinha a essa polia, sempre a 30° com a horizontal. As duas massas são iguais, e existe atrito entre a caixa grande e o chão.

O enunciado original só diz "a figura mostra..." e não traz a figura. Por isso eu descrevo o sistema inteiro aqui, peça por peça, sem pular nada, é esse quadro mental que você vai usar em cada passo da resolução.

/01 · a caixa grande

Parede vertical + atrito

Carrega a parede vertical presa nela e tem atrito com o chão. É nela que fica presa a polia ideal.

/02 · a massinha

Escorrega e é puxada

Escorrega verticalmente pela parede da caixa e está presa a um fio que faz sempre 30° com a horizontal.

/03 · a pergunta

Qual é a tração no fio

De todo o sistema, a questão quer uma coisa só: o valor da tração TT.

Por que os blocos andam juntos?

Os dois blocos andam juntos por causa de um vínculo. Entender isso agora, em palavras, é o que faz toda a matemática lá na frente parecer fácil.

Antes de sair escrevendo fórmula, pensa comigo no que está rolando. A caixa grande e a massinha aceleram juntas para o lado. Essa parede aqui na caixa grande obriga a massinha a sempre se deslocar para a direita junto com a caixa grande. Faz sentido a gente chamar isso de um vínculo. É uma conexão entre os corpos, e é ela que amarra o movimento dos dois.

Só que a massinha tem dois movimentos ao mesmo tempo: ela é arrastada para a direita com a caixa e ainda desce pela parede. A caixa, não, a caixa só anda na horizontal.

Sacou a ideia? Primeiro a gente entende o que está rolando com esse sistema, e aí a gente faz umas contas. Você vai ver que a gente faz até poucas contas. Sem enxergar esse vínculo, você trava; com ele, o resto é só montar equação.

Vínculo: uma conexão entre os corpos que amarra o movimento dos dois, é o motivo de a caixa e a massinha nunca se moverem de forma independente.

Quais forças agem em cada bloco?

Antes de escrever qualquer F=maF = ma, você desenha as forças que agem em cada corpo, o diagrama de corpo livre. É o mapa que segura a resolução: se sobra ou falta força aqui, a conta despenca lá na frente.

Na massinha agem três forças: o peso, para baixo (MgMg); a tração do fio, a 30°; e a normal da parede, como a massinha fica grudada contra a parede, existe uma força de contato trocada entre as duas. Na caixa grande agem o peso (MgMg), a normal do chão (NN'), a reação da massinha sobre a parede, as duas trações que a polia transmite (a polia é presa na caixa, então o que puxa a polia puxa a caixa) e o atrito com o chão, que se opõe ao movimento.

ForçaNa massinhaNa caixa grande
Peso (MgMg)
Tração do fio, a 30°
Normal de contato com a parede
Normal do chão (NN')
Reação da massinha (3ª lei)
Trações da polia (×2\times 2)
Atrito (μN\mu N')

Como montar a segunda lei de Newton?

O método é o de sempre, e é o mesmo de toda questão de dinâmica. Pra começar, é simples: leis de Newton, problema de dinâmica, você representa todos os esforços que estão atuando nos corpos e escreve F igual a MA. Velho, você resolve todos os problemas assim.

A gente escreve a segunda lei de Newton para cada corpo e em cada direção, x e y. Cada equação vira uma linha do sistema.

Na massinha, na horizontal, quem faz ela acelerar é a normal da parede: N=MaxN = M a_x. Na vertical, o peso vence a tração e ela desce: MgT=MayMg - T = M a_y.

Tem um detalhe que o próprio enunciado entrega: existe atrito entre a caixa e o chão, então vai aparecer uma força de atrito na caixa. Esse atrito é cinético e vale μN\mu N', e o pulo aqui é usar a normal certa. O atrito é entre a caixa e o chão, então quem entra é a normal do chão (NN'), não a normal da parede.

A segunda lei de Newton, bloco a bloco
N=MaxMgT=May N = M a_x \qquad Mg - T = M a_y
fat=μN f_\text{at} = \mu N'

Escreve tudo sem medo: é dessas equações que a resposta vai sair.

Segunda lei de Newton: F = m·a e o que ela esconde

Como decompor a tração a 30°?

A tração se decompõe em duas componentes: T2\dfrac{T}{2} na vertical e T32\dfrac{T\sqrt{3}}{2} na horizontal. É aqui que a Matemática assume a questão.

O fio faz 30° com a horizontal. Essa tração tem uma componente vertical que é T seno de 30, e seno de 30 é meio, então isso vale T sobre 2. E ela tem uma componente horizontal que vale T cosseno de 30, e cosseno de 30° é 32\dfrac{\sqrt{3}}{2}, então essa componente fica T32\dfrac{T\sqrt{3}}{2}.

Repara que não tem nada para decorar. Você olha o triângulo retângulo que o fio forma com a horizontal, marca o 30° e lê seno e cosseno direto do desenho.

As componentes da tração
Tsen30=T2 T\operatorname{sen}30^\circ = \dfrac{T}{2}
Tcos30=T32 T\cos 30^\circ = \dfrac{T\sqrt{3}}{2}

Essas duas componentes são exatamente o que entra nas equações de F=maF = ma que a gente montou. É a ponte entre a física e a conta.

Seno, cosseno e tangente sem decorar

Por que essa questão trava todo mundo?

Essa questão trava todo mundo por um motivo específico: quando você termina de montar F = ma, sobram três incógnitas (TT, axa_x e aya_y) e só duas equações. Falta uma, e a que falta não é física, é geométrica.

3 incógnitas ×\times 2 equações. É o desequilíbrio que só a equação do vínculo geométrico resolve, a que a gente chama de equação do vínculo geométrico, uma equação que relaciona a aceleração entre os corpos do sistema.

Lembra do vínculo lá do começo? A massinha desce com aceleração vertical aya_y e é arrastada para a direita com a mesma aceleração horizontal axa_x da caixa. Olhando a geometria do fio a 30°, dá para provar que essas duas acelerações estão amarradas:

O pulo do gato
ax=aycosθ a_x = a_y \cos\theta

Essa é a condição que faltava. Sem ela, o sistema não fecha. É exatamente essa dedução que só existia falada no vídeo, agora você lê, relê e dá Ctrl-F no ponto que te escapou.

Qual é a tração no fio?

Com o vínculo geométrico, a conta fecha. Antes dele o aperto era esse: você fazia a decomposição, montava o sistema, e o que tinha de incógnita era o TT, o axa_x e o aya_y, fizeram a brincadeira toda, só que sobraram três incógnitas e só duas equações. A matemática não deixa resolver assim.

Aí entra a equação do vínculo, e o quadro vira: antes eram duas equações e três incógnitas; agora são uma, duas, três equações para três incógnitas. A física já acabou, aqui é matemática, é só pegar o que você quer.

O resto é álgebra: divide uma equação pela outra, isola e chega na tração. Repara numa coisa boa: a resposta depende do atrito. Quanto maior o μ\mu, maior a tração, e isso faz sentido físico.

A tração no fio, resposta final
T=2mg(μ+3)33μ T = \dfrac{2mg(\mu + \sqrt{3})}{3\sqrt{3} - \mu}

onde μ\mu é o coeficiente de atrito, mm a massa de cada bloco e gg a gravidade.

Dá pra resolver de mais de um jeito?

Dá, sim. E é aí que mora o "entender, não decorar": quando você entende o fenômeno, aparece mais de um caminho.

Numa outra questão dura do ITA, a de mudança de referencial, eu mostro isso na prática: a gente vai resolver não de uma, mas de duas formas lindas e distintas, e cada uma delas explora uma parte diferente da nossa inteligência.

Nesta questão dos dois blocos, o caminho do vínculo geométrico é o mais limpo. Mas o valor de verdade está em conferir seu raciocínio por outra via, em vez de decorar um roteiro único.

Entender, não decorar. Quando você entende o porquê de cada passo, o caminho do vínculo geométrico deixa de ser o único jeito de chegar lá, passa a ser só o mais limpo.

É mesmo a questão mais difícil do ITA?

Não exatamente. "A mais difícil do ITA" funciona como título, não como fato, e eu prefiro te contar isso de frente.

Eu não acho que essa é exatamente a questão mais difícil do ITA. O ITA sequer tem um ranking oficial de questões mais difíceis. É um apelido do público. Mas ela tem uma dificuldade real, e essa dificuldade tem nome: a equação do vínculo geométrico.

Para você ter uma ideia do nível: tem prova de ITA que é osso de verdade. A de 2014, por exemplo, para quem já é do meio, essa prova foi nível satanás, nem o capeta conseguiu fazer 100% dela.

Se você mira o ITA ou o IME, o jogo não é decorar a resposta desta questão. É treinar esse tipo de raciocínio até ele virar natural, e é para isso que eu fico resolvendo questão difícil com você.

Se quiser treinar mais um pouco, tem outra questão dura do ITA que eu também resolvo por escrito, do enunciado à resposta.

Outra questão difícil do ITA, resolvida por escrito
É o que eu faço nas Lições de Física. Toda a Física do ensino médio, do fenômeno à fórmula, com provas-modelo de ENEM, AFA, EsPCEx e ITA/IME resolvidas passo a passo. Bora treinar o próximo desafio.
Conhecer Lições de Física

FAQ: a questão mais difícil do ITA

Qual é a questão mais difícil do ITA?

A que ficou famosa com esse apelido é uma questão de Física do ITA 2012: um sistema de dois blocos de mesma massa, com atrito entre a caixa e o chão, uma polia ideal e um fio sempre a 30° com a horizontal, pedindo a tração no fio. O apelido é do público, eu resolvo ela inteira, por escrito, aqui na página.

Por que essa questão é considerada difícil?

Porque, quando você monta a segunda lei de Newton, sobram três incógnitas (TT, axa_x e aya_y) para só duas equações. O que fecha a conta não é mais física, é uma condição geométrica: a equação do vínculo geométrico. Quem não enxerga essa equação trava exatamente aí, o resto é conta que qualquer um faz.

O que é a equação do vínculo geométrico?

É uma equação que relaciona a aceleração entre os corpos do sistema. Como a massinha desce e é arrastada para a direita junto com a caixa, o fio a 30° amarra a aceleração horizontal e a vertical: ax=aycosθa_x = a_y\cos\theta. É a condição que faltava para o sistema de três incógnitas fechar.

Essa questão é de física ou de matemática?

Começa como física: montar as forças e escrever F=maF = ma. Mas depois que o sistema está montado, a física já acabou, o que fecha a conta é matemática pura: resolver o sistema 3×33\times 3 com a trigonometria do ângulo de 30°. É por isso que essa resolução vive no cluster de Matemática, mesmo a questão sendo de Física.

Qual é a tração no fio (a resposta)?

A tração no fio vale T=2mg(μ+3)33μT = \dfrac{2mg(\mu+\sqrt{3})}{3\sqrt{3}-\mu}, onde μ\mu é o coeficiente de atrito, mm a massa de cada bloco e gg a gravidade. Repara que quanto maior o atrito, maior a tração, a resposta faz sentido físico.

O ITA tem uma "questão mais difícil" oficial?

Não. Eu mesmo não acho que essa é exatamente a mais difícil, e o ITA sequer tem um ranking oficial de questões mais difíceis. É um apelido do público, mas a questão tem uma dificuldade real, que mora na equação do vínculo geométrico, não no hype do título.

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