Como resolver lançamento oblíquo com quantidade de movimento?

Lançamento oblíquo com quantidade de movimento se resolve amarrando os dois assuntos no ponto do choque: lá no ápice, você sai fazendo a conservação do momento na horizontal antes e depois do choque, e igualando as componentes verticais de velocidade.

A questão-modelo é uma do ITA 2017: duas partículas lançadas de posições opostas, uma a 30° e outra a 60°, que colidem elasticamente no mesmo ponto de altura máxima.

Aqui embaixo eu resolvo ela inteira, por escrito e em KaTeX, até as três letras: M1/M2=5/3M_1/M_2 = 5/3, a distância 4L/34L/3 e o alcance 5L/35L/3. É a versão que aquele vídeo de 32 minutos nunca te deu em texto, a que você pode reler com calma na véspera da prova.

E antes de sair para as contas, eu recapitulo os dois assuntos separados. Você não precisa já ser fera nos dois para acompanhar.

Atualizado em jul/2026. Quem resolve essa questão é o Felipe Guisoli, mestre em Física Teórica pela UFMG e criador do Universo Narrado, mais de 1 milhão de inscritos no YouTube e mais de 50 mil alunos. Entender, não decorar.

Qual é a questão do ITA 2017?

A questão do ITA 2017 é esta: duas partículas são lançadas de posições opostas, perfazendo trajetórias no mesmo plano vertical e se chocando elasticamente. E o choque acontece no ponto de altura máxima, que é o mesmo para as duas.

A primeira é lançada a 30° e aterrissa fazendo 90° com o solo, a uma distância L do ponto de lançamento. A segunda é lançada a 60°.

O que a questão pede:

  • (a) a relação entre as massas das partículas;
  • (b) a distância entre os dois pontos de lançamento;
  • (c) a distância horizontal que a segunda partícula percorre.

Guarda esses dados, os 30°, os 60°, a aterrissagem a 90° e a distância L, porque são eles que eu vou usar em cada passo da conta a seguir.

O que é lançamento oblíquo?

Lançamento oblíquo é isto: na horizontal você tem um movimento uniforme, uma velocidade que não muda; na vertical, um movimento que a gravidade freia na subida e puxa de volta na descida.

O camarada que estudou isso foi o Galileu. Ele estudou um negócio que chama princípio da independência dos movimentos, que fala que movimentos como esse devem ser estudados de forma separada, a parte horizontal e a parte vertical. Você trata cada eixo por conta.

Na prática, você decompõe a velocidade de lançamento em duas componentes:

Componentes da velocidade
Vx=V0cosθ V_x = V_0 \cos\theta
Vy=V0senθ V_y = V_0 \, \operatorname{sen}\theta

A horizontal fica constante do início ao fim. A vertical diminui por causa da gravidade, até zerar no ponto mais alto.

O tempo de subida é igual ao tempo de descida, beleza? O movimento é simétrico, a subida é descida. Daí saem as duas fórmulas que voltam nas letras B e C: o tempo de voo e o alcance.

Altura, tempo de voo e alcance
H=V02sen2θ2g H = \dfrac{V_0^{2}\,\operatorname{sen}^{2}\theta}{2g}
T=2V0senθg T = \dfrac{2\,V_0\,\operatorname{sen}\theta}{g}
A=V02sen(2θ)g A = \dfrac{V_0^{2}\,\operatorname{sen}(2\theta)}{g}

Guarda essas três, são a ferramenta das distâncias que eu uso lá nas letras B e C.

Guarda essas duas. Elas são a ferramenta das distâncias.

Guarda esse detalhe: no ponto mais alto da trajetória, a velocidade vertical é zero. Só sobra velocidade horizontal ali, é a peça que vai destravar o choque mais adiante.

Aprofunde: movimento retilíneo uniformemente variado (MRUV)

O que é quantidade de movimento?

Quantidade de movimento é uma grandeza vetorial, e a definição é curta: a quantidade de movimento de um corpo é igual ao produto da sua massa pelo seu vetor velocidade. Ou seja, P=mvP = m \cdot v.

Quantidade de movimento
P=mv \vec{P} = m \, \vec{v}

Uma grandeza vetorial: massa vezes o vetor velocidade.

E não é fórmula para decorar. A partir da segunda lei de Newton, F igual a MA, eu consigo numa boa obter isso aqui, o Teorema do Impulso, de onde a quantidade de movimento nasce, não de uma tabelinha na parede.

Aprofunde: segunda lei de Newton

O que interessa para a questão é o choque. Quando dois corpos colidem, a quantidade de movimento inicial é igual à quantidade de movimento final. Momento inicial igual ao momento final.

Conservação no choque
Pantes=Pdepois \sum \vec{P}_{antes} = \sum \vec{P}_{depois}

Momento total antes do choque é igual ao momento total depois.

É essa igualdade que vai amarrar as massas das duas partículas lá na letra A. Sacou a ideia? Sem entender de onde vem o P=mvP = m \cdot v, a conservação vira decoreba, e é isso que eu não quero para você.

Momento é vetor: massa vezes velocidade. Não esquece a direção, é ela que vai decidir os sinais na hora de montar a conservação.

Como unir lançamento oblíquo e momento?

Lançamento oblíquo e quantidade de movimento se encontram no ponto de altura máxima. É lá que mora a sacada, e ela é a coisa que nenhum portal escreve.

Como as duas partículas se chocam no mesmo ponto mais alto, duas coisas caem no seu colo de graça.

O pulo do gato: o choque acontece no ponto de altura máxima, é essa coincidência geométrica que amarra lançamento oblíquo e quantidade de movimento num método só.

/01 · componentes iguais

As componentes verticais são iguais

As duas sobem até a mesma altura máxima, e a altura só depende de V0senθV_0 \cdot \sen\theta. Se duas bolas lançadas juntas chegam na mesma altura, é porque andaram juntas o tempo inteiro, as componentes verticais de lançamento das duas são iguais.

/02 · só horizontal

No choque, só sobra horizontal

No ponto mais alto, a velocidade vertical de cada partícula é zero. No instante do choque, então, só existe velocidade horizontal.

Mesma altura máxima
V01sen30=V02sen60 V_{0_1}\operatorname{sen}30^\circ = V_{0_2}\operatorname{sen}60^\circ

As componentes verticais de lançamento são iguais, é essa igualdade que amarra as duas velocidades iniciais.

É por isso que o método é exatamente esse: você faz a conservação do momento na horizontal, antes e depois do choque, e iguala as componentes verticais de velocidade. Aqui a cinemática do oblíquo encontra a conservação do momento. Entende essa ponte e o resto é montar equação. Pula ela e você trava, mesmo sabendo os dois assuntos separados.

Qual é a relação entre as massas?

A relação entre as massas é M1/M2=5/3M_1/M_2 = 5/3, e ela sai da conservação do momento na horizontal.

O caminho é este. No ápice, cada partícula só tem velocidade horizontal: V01cos30V_{0_1} \cdot \cos 30^\circ para a primeira, V02cos60V_{0_2} \cdot \cos 60^\circ para a segunda. Como o choque é elástico, além do momento se conserva também a energia cinética. A energia conserva, o coeficiente de restituição é 1.

A relação entre as massas
Pantes=Pdepois  M1M2=53 \sum \vec{P}_{antes} = \sum \vec{P}_{depois} \ \Rightarrow\ \dfrac{M_1}{M_2} = \dfrac{5}{3}

A mesma conservação de sempre, agora só no eixo horizontal e com o ângulo reto da aterrissagem fechando o sistema.

Agora junta duas coisas: a conservação do momento (momento antes igual a momento depois) e o dado que o enunciado esconde no ângulo, a partícula 1 aterrissa fazendo 90 graus com o solo, um ângulo reto. Esse ângulo reto é a condição que fecha a conta e amarra as massas. Resolvendo o sistema, você chega em M1/M2=5/3M_1/M_2 = 5/3.

E aparece um resultado lindo no meio do caminho: olha que louco, esse cara recua com o dobro da velocidade com a qual ele foi lançado. É o tipo de coisa que só a conta honesta revela, decoreba nenhuma te mostra isso.

Choque elástico: conserva momento e energia (coeficiente de restituição = 1). E um resultado bônus sai no meio da conta: uma das partículas recua com o dobro da velocidade com que foi lançada.

Quais são as distâncias das partículas?

As distâncias são 4L/34L/3 na letra B e 5L/35L/3 na letra C. Elas fecham com a cinemática pura do oblíquo, agora que a letra A já relacionou as velocidades.

A letra B pede a distância entre os dois pontos de lançamento, e dá 4L/34L/3. A letra C pede a distância horizontal que a segunda partícula percorre, e dá 5L/35L/3.

A ferramenta você já tem lá da Seção 3: o alcance A=V02sen(2θ)gA = \dfrac{V_0^2\,\sen(2\theta)}{g} e o tempo de voo T=2V0senθgT = \dfrac{2\,V_0\,\sen\theta}{g}, mais o dado do enunciado de que a primeira partícula cai a uma distância L. Como o choque é no ápice, na metade do tempo de voo, você acha o quanto cada uma anda na horizontal até o ponto de colisão, soma o pedaço que ainda falta até a aterrissagem, e as distâncias se encaixam.

A ferramenta das distâncias
A=V02sen(2θ)g A = \dfrac{V_0^{2}\,\operatorname{sen}(2\theta)}{g}

Aplicada às duas partículas, junto com o tempo de voo T e o dado de que a partícula 1 cai a uma distância L, essa é a conta que fecha as três respostas.

As três respostas, juntas: M1/M2=5/3M_1/M_2 = 5/3 (letra A) · 4L/34L/3 (letra B) · 5L/35L/3 (letra C).

Olha o tamanho da sacada do ITA: lançamento, decomposição de vetores, quantidade de movimento, cinemática, movimento uniformemente variável. O Ita conseguiu inteligentemente e elegantemente misturar esses conceitos todos nessa elegantíssima questão.

Quais erros mais derrubam na prova?

O erro que mais derruba candidato nesse tipo de questão é confundir três coisas que parecem iguais e não são. Vamos uma por uma:

Erro comumPor que está erradoO jeito certo
Achar que momento e energia são a mesma coisaNo choque elástico as duas se conservam, mas são equações diferentesTrate como duas equações separadas, trocar uma pela outra trava a conta
Esquecer que, no ápice, a velocidade vertical é zeroNesse ponto o momento no choque é só horizontalNão tente conservar momento na vertical ali, a conta nem existe
Tratar o choque elástico como inelásticoNo inelástico os corpos saem andando juntos, como um corpo sóNo elástico não há perda de energia e os corpos se separam depois da batida

Fixa essas três e você não erra por bobeira, erra, no máximo, por conta, que é o que se conserta treinando.

Elástico: conserva energia e momento; os corpos se separam depois do choque. É a confusão que mais derruba na prova.

Como treinar esse tipo de questão?

Você treina esse tipo de questão decorando o gatilho, não o caso. Sempre que o enunciado tiver um choque ou uma explosão no meio de um lançamento, é conservação do momento. Aí você usa a geometria do oblíquo, mesma altura máxima leva a componentes verticais iguais, ápice leva a só a horizontal no choque, para ligar as velocidades.

O gatilho: choque ou explosão no meio de um lançamento → conserva o momento. É esse padrão que você reconhece, não o enunciado decorado.

  1. Identifica o choque (ou explosão) no meio do lançamento.
  2. Conserva o momento na horizontal, antes e depois.
  3. Usa a geometria do oblíquo para ligar as velocidades das partes envolvidas.

E não se prende à questão do ITA em si. Como eu falo na própria aula, esse negócio de pôr a questão mais difícil do ITA, é só uma desculpa pra gente dar física. O caso muda; o gatilho fica.

Para fixar, olha um segundo exemplo com o mesmo gatilho: o desafio da massa reduzida. O problema começa com uma massinha m que está se movendo com velocidade v0 e colide com um sistema massa-mola. Você resolve com as duas mesmas leis de sempre, a conservação da quantidade de movimento e a conservação de energia. São as duas leis de conservação fundamentais da mecânica e é o que a gente vai usar aqui.

Muda o cenário, mas o método é o mesmo. Dá o play em Desafio de Física: Massa Reduzida para ver essa resolvida de ponta a ponta.

Onde cai lançamento oblíquo com colisão?

Lançamento oblíquo com quantidade de movimento cai em prova pesada: ITA, IME, EsPCEx, AFA e Escola Naval. É justamente o tipo de questão que separa quem decorou de quem entendeu.

Por que essa mistura derruba candidato: a maioria treina os dois assuntos separados e trava na hora de juntar. Quem só decorou fórmula não reconhece o gatilho quando o choque aparece no meio do lançamento.

Nas lives de exercício eu vivo brocando esse naipe de questão. A ideia é gente brocar aqui uns três, quatro exercícios sobre lançamento, lançamento oblíquo, lançamento horizontal, um atrás do outro, até o padrão virar automático. É esse treino de reconhecimento que faz a diferença na hora H.

E não é decoreba. O nosso objetivo aqui é ficar mais inteligente e entender as coisas. Esse aqui é o modus operandi do universo narrado. Se você mira concurso militar ou ITA/IME, o jogo não é decorar a resposta desta questão. É treinar o raciocínio até ele virar natural.

Mais um desafio: a questão mais difícil de física do ENEM

É o que eu faço nas Lições de Física: toda a Física do ensino médio, do fenômeno à fórmula, com prova-modelo de ENEM, AFA, EsPCEx e ITA/IME resolvida passo a passo. Bora para o próximo desafio.

FAQ: lançamento oblíquo e quantidade de movimento

Como resolver uma questão que junta lançamento oblíquo e quantidade de movimento?

O gatilho é a colisão: sempre que houver um choque no meio de um lançamento, você conserva o momento. No ponto de altura máxima, onde as partículas se chocam, você faz a conservação do momento na horizontal, antes e depois do choque, e iguala as componentes verticais de velocidade, que são iguais porque as duas sobem à mesma altura. Aqui na página eu deduzo cada passo por escrito, na questão do ITA 2017.

Qual é a resposta da questão do ITA 2017 (lançamento oblíquo + colisão)?

São três letras. A relação entre as massas é M1/M2=5/3M_1/M_2 = 5/3; a distância entre os pontos de lançamento é 4L/34L/3; e a distância horizontal percorrida pela segunda partícula é 5L/35L/3. Todas saem de conservar o momento no choque e aplicar a cinemática do lançamento oblíquo, e eu mostro o caminho inteiro em KaTeX.

Por que a conservação do momento no choque é só na horizontal?

Porque as partículas colidem no ponto de altura máxima, e nesse ponto a velocidade vertical de cada uma é zero, só existe velocidade horizontal ali. O momento vertical no instante do choque é nulo, então a conta do momento acontece toda na horizontal. Foi por isso que o enunciado fez a partícula 1 aterrissar a 90°: é a condição que fecha a conta.

Preciso saber lançamento oblíquo e quantidade de movimento separados antes?

Ajuda muito, e é por isso que a página recapitula os dois antes das contas. Do oblíquo você precisa das componentes (horizontal uniforme, vertical freada pela gravidade) e do alcance; da quantidade de movimento, do P=mvP = m \cdot v e da ideia de que o momento antes do choque é igual ao momento depois. Com esses dois na mão, juntar os dois vira só montar equação.

Qual é o erro mais comum nesse tipo de questão?

Tratar o choque elástico como se fosse inelástico, achar que os corpos saem andando juntos como se fossem um só. No elástico não é assim: não há perda de energia e os corpos se separam, então valem as duas conservações, momento e energia. O outro erro clássico é confundir conservação de momento com conservação de energia: no elástico as duas valem, mas são equações diferentes.

Lançamento oblíquo com colisão cai em quais provas?

É tema recorrente de ITA, IME, EsPCEx, AFA e Escola Naval, as provas de exatas mais pesadas. Cai porque separa quem decorou de quem entendeu: junta dois assuntos numa cena só. Se você mira militar ou ITA/IME, o jogo não é decorar a resposta desta questão, é treinar o raciocínio de reconhecer o padrão até virar natural.

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