Qual é o desafio de cinemática do IME?
Essa é a questão do IME 2016, a mais cobrada de mudança de referencial em provas militares. Dois observadores, não um, não três, mas dois, em movimento acompanham o deslocamento de uma partícula no plano, um mosquito. E a pergunta que fica é: como o observador 1 descreveria o movimento do observador 2?
O caminho para chegar lá tem dois passos. Primeiro, mudar de referencial: escrever o movimento do observador 2 do ponto de vista de quem deixa o observador 1 parado. Depois, eliminar o tempo com a identidade .
A trajetória é uma elipse, a alternativa da letra D. Aqui embaixo eu deduzo cada passo até chegar nela.
Atualizado em jul/2026. Sou mestre em Física Teórica pela UFMG, e já são mais de 1 milhão de inscritos no Universo Narrado. A régua aqui é uma só: entender o porquê de cada passo, não decorar a resposta da letra D.
O que a questão do IME pede?
A questão pede uma coisa só: como é que o observador 1 vai descrever o movimento do observador 2.
O enunciado é esse. O observador 1, que eu desenho de azul, considera estar no centro do próprio sistema de coordenadas e vê a partícula, um mosquito, na posição e . O observador 2, de vermelho, equaciona o movimento do mesmo mosquito por e , com o tempo.
Cada observador equaciona o mesmo mosquito a partir da própria origem.
Repara na sacada que o próprio enunciado entrega: se eles observam movimentos distintos dessa partícula, é porque os observadores se movem um em relação ao outro. É essa diferença que a questão quer que você traduza em equação.
Observador 1
Considera estar no centro do próprio sistema de coordenadas.
Observador 2
Equaciona o movimento do mesmo mosquito a partir da própria origem.
O que a questão pede
Como o observador 1 descreveria o movimento do observador 2, não do mosquito.
O que é mudar de referencial?
Mudar de referencial é reescrever o movimento do ponto de vista de quem você escolhe deixar parado.
Antes de subtrair qualquer coordenada, pensa comigo no que é um referencial. Estar no referencial da árvore é estar no referencial no qual a árvore está parada, e na verdade ninguém se move em relação a si mesmo.
Aí entra a sacada que eu aprendi com o Galileu: a definição que o Galileu dá o repouso é o movimento compartilhado. E movimento compartilhado ninguém percebe, dois carros na estrada a 100 km/h, lado a lado, se enxergam parados um em relação ao outro. É o mesmo motivo de você não sentir a Terra girar: como é que a Terra anda a 100 mil km por hora e ninguém percebe isso? Porque todo mundo compartilha do mesmo movimento.
Repouso é movimento compartilhado (Galileu). Guarda essa ideia. Sem esse porquê, a conta lá na frente vira decoreba.
Eu construo essa ideia com calma no vídeo Como fazer uma mudança de referencial, com os carros na estrada e a árvore parada, vale assistir antes de seguir pro próximo passo.
Como o observador 1 vê o 2?
O observador 1 enxerga o movimento do 2 subtraindo vetores: a posição de 2 em relação a 1 é .
Vou dar nome aos vetores. é o vetor posição do mosquito em relação ao referencial 1; é o vetor posição do mosquito em relação ao referencial 2. Para sair da origem 1 e chegar no mosquito, você pode passar pela origem 2, então é a soma do vetor que liga as duas origens (esse é o ) com o . É a regra do polígono, um trianglinho de vetores.
A posição de 2 em relação a 1 é o vetor posição do mosquito em relação ao referencial 1 menos o vetor posição do mosquito em relação ao referencial 2.
Repara bem numa coisa: não é a trajetória do mosquito. É como a origem do referencial 2 se desloca, vista do referencial azul. Esse é o pulo do gato que nenhuma página escreve.
Como montar as coordenadas relativas?
Com na mão, agora é braço: subtrai coordenada por coordenada.
Na horizontal, , que dá . Na vertical, subtraia as coordenadas y. Então você vai ter 4 seno menos 5 seno, que é então menos seno. Ou seja, .
Duas equações paramétricas, ainda amarradas pelo tempo .
Pronto. O movimento do referencial 2 visto pelo 1 já está escrito. Só que repara: o tempo ainda não sumiu. As duas equações ainda dependem dele, então isso ainda não é a trajetória, é o movimento parametrizado. O próximo passo é matar esse e ficar só com a relação entre e , que é a curva de verdade que o observador 1 vê.
Como eliminar o tempo da equação?
Para achar a trajetória, você elimina o tempo com a identidade .
Tem um negócio que você já sabe: seno ao quadrado mais cosseno ao quadrado é 1. É essa igualdade que faz o desaparecer.
Isola cada função. De sai , logo . De sai , logo .
O tempo sumiu, porque a gente levou tudo ao quadrado, e sobrou uma relação só entre e .
Essa é a função da identidade fundamental aqui: a ponte que troca duas equações paramétricas por uma equação da trajetória. Sacou a ideia? Sem esse passo você fica preso no tempo e nunca vê a curva aparecer.
A relação fundamental da trigonometriaPor que a trajetória é uma elipse?
A trajetória que o observador 1 vê o 2 traçar é uma elipse: . É a letra D.
Entretanto, eu posso admitir um referencial se move em relação ao outro com movimento elíptico. O referencial azul, esse moleque, vai observar esse outro aqui escrevendo uma elipse. Olha que loucura.
Repara na elegância. A elipse tem semieixo 2 na horizontal (vem do ) e semieixo 1 na vertical (vem do ), centrada na origem. E eu cheguei nisso só sabendo como o mosquito se move visto de cada observador: subtraí um do outro e a identidade trigonométrica fez o resto.
Elipse de semieixos 2 e 1, centrada na origem.
É o tipo de resultado que dá gosto. Um observador enxergando o outro desenhar uma elipse no ar, sem que nenhum dos dois tenha feito nada de especial.
Qual é o erro mais comum?
O erro mais comum é confundir a trajetória do mosquito com o movimento do referencial 2.
A questão não pede a curva do mosquito. Nem a que o observador 1 vê, nem a que o observador 2 vê. Ela pede o , que dá . São três curvas diferentes:
| Trajetória | Equação | Forma |
|---|---|---|
| Mosquito visto pelo observador 1 | elipse (semieixos 3 e 4) | |
| Mosquito visto pelo observador 2 | círculo (raio 5) | |
| Referencial 2 visto pelo observador 1 (a resposta) | elipse (letra D) |
Quem resolve no automático calcula a trajetória do mosquito, acha uma cônica bonita e marca a alternativa errada com a maior confiança, e o enunciado tem pegadinha exatamente com uma dessas curvas do mosquito.
O antídoto: pare e pergunte de quem é a posição que você quer. Com essa pergunta clara, o sinal e a conta se encaixam sozinhos.
Como treinar mudança de referencial?
Uma questão só não faz técnica. Mudança de referencial vira natural quando você treina em contextos diferentes. Três variações que eu resolvo no canal:
- Queda livre puro: achar o tempo para percorrer o último de vários trechos iguais, usando a função horária da posição do MUV.
- Cinemática vetorial de prova militar: velocidade vetorial média, soma e decomposição de vetores, do tipo que cai em Escola Naval e ITA.
- A questão mais difícil do ITA por mudança de referencial: a de distância mínima entre dois móveis. É a questãozinha linda do Ita, que eu resolvo não de uma, mas de duas formas lindas e distintas, cada uma explorando uma parte diferente da nossa inteligência.
A ideia é sempre a mesma que você acabou de ver: trocar um problema complicado por um simples, escolhendo o referencial certo.
Movimento retilíneo uniformemente variado (MRUV)Onde cai mudança de referencial?
Mudança de referencial cai em IME, ITA, Escola Naval, EsPCEx e nos vestibulares de engenharia mais puxados.
Por que isso derruba candidato. Quem só memorizou que "velocidade relativa é subtrair as velocidades" trava quando o enunciado pede a trajetória inteira de um referencial visto por outro, como neste desafio do IME.
O ganho de dominar isso é concreto. Quando você escolhe o referencial certo, o problema muda de cara, eu troquei o problema complicado para um problema simples. Se você mira concurso militar ou ITA/IME, o jogo não é decorar a resposta desta questão; é treinar esse raciocínio até ele virar natural.
FAQ: desafio de cinemática do IME
Qual é a resposta do desafio de cinemática do IME 2016?
O observador 1 descreve o movimento do observador 2 por uma elipse: , que é a letra D. Ela sai de (subtrair as posições do mosquito vistas por cada observador) e de eliminar o tempo com . Aqui na página eu deduzo cada passo por escrito.
O que é mudar de referencial?
É reescrever o movimento do ponto de vista de quem você escolhe deixar parado. Estar no referencial da árvore é estar no referencial em que a árvore está em repouso, e ninguém se move em relação a si mesmo. O repouso, como o Galileu definiu, é o movimento compartilhado: por isso você não sente a Terra girar a 100 mil km por hora.
Por que a trajetória vira uma elipse?
Porque, ao subtrair as coordenadas, o movimento do referencial 2 visto pelo 1 fica e . Quando você usa para tirar o tempo, sobra , a equação de uma elipse de semieixos 2 e 1. Um referencial acaba vendo o outro traçar uma elipse.
Qual é o erro mais comum nessa questão?
Confundir a trajetória do mosquito com o movimento do referencial 2. O mosquito visto pelo observador 1 é uma elipse () e visto pelo 2 é um círculo (), mas a questão pede o , como o 1 vê o 2 se mover. Quem calcula a curva do mosquito marca a alternativa errada.
Preciso decorar a fórmula da velocidade relativa?
Não. A fórmula de subtrair as velocidades é só um caso particular de mudar de referencial. Quando você entende que está pondo um corpo em repouso e olhando o resto dali, a conta aparece sozinha. Decorar a regrinha é o que faz você travar quando o enunciado troca de roupa, como neste desafio do IME.
Onde mudança de referencial cai na prova?
É tema recorrente de IME, ITA, Escola Naval, EsPCEx e dos vestibulares de engenharia mais puxados. Cai porque separa quem decorou de quem entendeu: dominar a técnica troca um problema complicado por um simples. Se você mira militar ou ITA/IME, vale treinar esse raciocínio até ele virar natural.
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