A parábola por trás da função do 2º grau

A definição formal é direta. Uma função quadrática é toda função real escrita como:

Forma geral · função do 2º grau
f(x)=ax2+bx+c,com a≠0

A condição a≠0 garante o termo de grau dois. Sem ele, sobraria f(x)=bx+c, que é uma função afim, com gráfico de reta.

É o termo ax2 que entorta a reta e produz a parábola, uma curva simétrica em forma de U que pode estar virada para cima ou para baixo. Toda função quadrática tem como gráfico uma parábola, sem exceção. Relembre a função afim, a função do 1º grau, e repare como a presença do quadrado muda tudo.

A partir daqui, o artigo inteiro gira em torno de uma única habilidade: ler essa curva. Para que lado ela abre, onde está o ponto que muda tudo e onde ela toca os eixos. Cada pergunta tem resposta direta nos coeficientes a, b e c.

Concavidade: o sinal de a manda na boca da parábola

A primeira coisa que o coeficiente a decide é a concavidade, ou seja, para que lado a boca da parábola está virada. Quem manda nisso é só o a, mais ninguém.

/01 · a > 0

Concavidade para cima

a>0

A parábola abre como uma tigela e tem um ponto de mínimo, o fundo da tigela.

/02 · a < 0

Concavidade para baixo

a<0

A parábola abre como uma cúpula e tem um ponto de máximo, o topo.

/03 · a = 0

Deixa de ser parábola

a=0

Sem o termo ax2, sobra f(x)=bx+c: o gráfico vira uma reta e cai na função do 1º grau.

Um jeito de não esquecer: o a positivo deixa a parábola sorrindo para cima, e o a negativo deixa ela de cara fechada para baixo. O valor absoluto de a controla a abertura: quanto maior o módulo, mais fechada e estreita a parábola fica.

Os coeficientes b e c: o que cada um faz no gráfico

Se o a manda na concavidade, os outros dois posicionam a parábola no plano.

O c é o mais fácil de ler. Ele é o valor da função quando x é zero, porque f(0)=c. Em outras palavras, o c é o ponto onde a parábola corta o eixo vertical. Se f(x)=x2−4x+3, a curva cruza o eixo vertical na altura 3.

O b, sozinho, é menos intuitivo, e por isso não compensa lê-lo de forma isolada. O que ele faz, sempre em conjunto com o a, é deslocar a parábola para os lados, posicionando o eixo de simetria e o vértice. É aí que ele entra para valer, e é o assunto da próxima seção, a parte mais importante de todas.

O vértice da parábola: Xv e Yv

Chegamos ao ponto alto do artigo. O vértice é onde a curva muda de direção, e é também onde está o valor máximo ou mínimo da função. Toda a leitura da parábola gira em torno dele.

O vértice é um ponto como qualquer outro, com um x e um y. A diferença é que ele é o mais importante, e por isso suas coordenadas ganham nome próprio: Xv e Yv.

Vértice da parábola
Xv=−b2a,Yv=−Δ4a,Δ=b2−4ac

A reta vertical x=Xv é o eixo de simetria da parábola. O Yv é o valor extremo: mínimo se a>0, máximo se a<0.

Toda parábola é simétrica, sem exceção, e isso dá um atalho bonito: quando a função tem duas raízes, o Xv fica exatamente no meio delas, na média entre as duas. Se as raízes são 1 e 7, o Xv é 4, e dá para responder de cabeça.

Do Yv sai direto o conjunto imagem, todos os valores que f(x) pode assumir. Para a>0, a imagem vai de Yv até mais infinito. Para a<0, vai de menos infinito até Yv. Dá ainda para achar o Yv sem a fórmula: calcule o Xv e jogue de volta na função.

Exemplo. Em f(x)=x2−4x+3: Xv=−(−4)/(2⋅1)=2; Δ=16−12=4; Yv=−4/(4⋅1)=−1. O vértice é (2,−1), o mínimo da função.

O Δ aparece no cálculo do Yv, mas o foco aqui é o vértice, não a resolução da equação. O passo a passo do discriminante e das raízes fica para o artigo da Fórmula de Bhaskara, em breve aqui no blog.

Os zeros da função: onde a parábola cruza o eixo x

Os zeros, ou raízes, são os valores de x em que f(x)=0. No desenho, são os pontos onde a parábola encosta ou cruza o eixo horizontal. Decorar três casos não ajuda muito aqui. Olhar o gráfico, sim.

/01 · dois zeros

Cruza em dois pontos

A parábola corta o eixo horizontal em dois pontos: dois zeros reais distintos.

/02 · um zero

Tangencia o eixo

A parábola encosta num único ponto: um zero real, que coincide com o vértice.

/03 · nenhum zero

Não toca o eixo

A parábola flutua inteira acima ou abaixo: nenhum zero real.

Quando os zeros existem e você os conhece, a função pode ser escrita na forma fatorada:

Forma fatorada
f(x)=a (x−x1)(x−x2)

Os valores x1 e x2 são os zeros. Essa forma mostra na cara onde a parábola corta o eixo, útil para esboços rápidos.

Função quadrática em ação: três exemplos resolvidos

Ler parábola se aprende treinando. Então pega esses três casos, do mais simples ao estilo ENEM. Em nenhum deles a gente resolve equação: o jogo é interpretar a curva.

Exemplo 1. Básico: concavidade, interseção e vértice

🪖 Básico Lendo a parábola

Dada f(x)=x2−6x+5, diga a concavidade, onde corta o eixo vertical e o vértice.

  1. Coeficientes: a=1, b=−6, c=5.
  2. Concavidade: a>0, abre para cima (mínimo).
  3. Eixo vertical: c=5, ponto (0,5).
  4. Vértice: Xv=3; Δ=36−20=16; Yv=−16/4=−4.
Resposta: parábola para cima, corta em (0,5), vértice de mínimo em (3,−4).

Exemplo 2. Intermediário: valor máximo e imagem

🪖🪖 Intermediário Máximo e conjunto imagem

Encontre o valor máximo e o conjunto imagem de f(x)=−2x2+8x−3.

  1. Coeficientes: a=−2, b=8, c=−3. Como a<0, há máximo.
  2. Abscissa: Xv=−8/(2⋅(−2))=2.
  3. Discriminante: Δ=64−24=40.
  4. Ordenada: Yv=−40/(4⋅(−2))=5.
Resposta: valor máximo 5 em x=2; imagem de −∞ até 5.

Exemplo 3. Avançado: otimização (estilo ENEM)

🪖🪖🪖 Avançado Altura máxima de um chute

A altura de uma bola, em metros, segue h(t)=−5t2+20t, com t em segundos. Qual a altura máxima e quando ocorre?

  1. Coeficientes: a=−5, b=20, c=0. Como a<0, há um pico.
  2. Instante do pico: Tv=−20/(2⋅(−5))=2 s.
  3. Altura máxima: Δ=400; Yv=−400/(4⋅(−5))=20.
Resposta: altura máxima de 20 metros, 2 segundos após o chute.

A resposta inteira saiu do vértice, sem resolver equação. Reconhecer que "altura máxima" quer dizer "Yv do vértice" já é metade do caminho.

Bônus: erros clássicos ao analisar a parábola

Os erros de função quadrática raramente vêm da conta. Vêm de leitura apressada da curva.

  1. 01

    Trocar o sinal da concavidade

    Esquecer que a<0 abre para baixo leva a marcar máximo onde há mínimo.

    Como evitar: antes de calcular, olhe o sinal do a e decida se a parábola vira para cima ou para baixo.
  2. 02

    Confundir o Xv com a raiz

    O Xv é a posição do vértice, não um zero. Em muitas parábolas o vértice nem toca o eixo horizontal.

    Como evitar: raiz é onde f(x)=0; vértice é o extremo. São pontos diferentes.
  3. 03

    Achar que c é sempre uma raiz

    O c é onde a parábola corta o eixo vertical, não o horizontal. Ele é f(0).

    Como evitar: associe c ao eixo vertical e os zeros ao eixo horizontal.
  4. 04

    Esquecer que a≠0

    Sem o termo x2, a função não é quadrática, e nada disso se aplica.

    Como evitar: confirme que existe ax2 com a≠0 antes de procurar parábola.

Para calcular as raízes a partir dos coeficientes, use a fórmula resolutiva. Para tratar a equação do 2º grau como tema, com propriedades e casos especiais, há a página dedicada.

Perguntas frequentes sobre função quadrática

O que é uma função quadrática?

Função quadrática, ou função do 2º grau, é toda função do tipo f(x) = ax² + bx + c, com a diferente de zero. Seu gráfico é sempre uma parábola, uma curva simétrica em forma de U que pode abrir para cima ou para baixo. Ver a seção: A parábola.

Qual é a fórmula da função quadrática?

A forma geral é f(x) = ax² + bx + c, com a diferente de zero. A partir dela derivam outras fórmulas úteis, como as coordenadas do vértice (Xv = -b/2a e Yv = -Δ/4a) e a forma fatorada f(x) = a(x - x1)(x - x2), quando a função tem raízes reais. Ver a seção: A parábola.

Qual é a fórmula do Xv e Yv?

As coordenadas do vértice são Xv = -b/(2a) para a abscissa e Yv = -Δ/(4a) para a ordenada, em que Δ = b² - 4ac. O Xv também define o eixo de simetria da parábola, de equação x = Xv. O Yv é o valor máximo da função quando a é negativo, ou mínimo quando a é positivo. Ver a seção: O vértice.

O que significa cada coeficiente da função quadrática?

O coeficiente a define a concavidade: positivo abre para cima, negativo abre para baixo, e seu módulo controla a abertura. O coeficiente c é o ponto onde a parábola corta o eixo vertical, já que f(0) = c. O coeficiente b, junto com o a, posiciona o eixo de simetria e o vértice. Ver a seção: Coeficientes b e c.

A função quadrática tem concavidade para baixo quando?

A concavidade é para baixo quando o coeficiente a é negativo, ou seja, a menor que zero. Nesse caso a parábola tem formato de cúpula e possui um ponto de máximo. Quando a é positivo, a concavidade é para cima e a parábola tem ponto de mínimo. Ver a seção: Concavidade.

Como calcular as raízes da função quadrática?

As raízes são os valores de x em que f(x) = 0, ou seja, onde a parábola cruza o eixo horizontal. Para encontrá-las a partir dos coeficientes, usa-se a fórmula resolutiva da equação do 2º grau, a Fórmula de Bhaskara, que tem um artigo dedicado aqui no Universo Narrado. Ver a seção: Os zeros.

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